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Paulinho da Costa e o ritmo vital

2026-06-04 HaiPress

Paulinho da Costa é um dos mais destacados músicos brasileiros no exterior — Foto: Divulgação/Netflix

RESUMO

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GERADO EM: 03/06/2026 - 21:28

"Documentário celebra Paulinho da Costa,lenda da percussão mundial"

Paulinho da Costa,percussionista carioca,é destaque no documentário "The Groove Under the Groove",dirigido por Oscar Rodrigues Alves. Com carreira internacional,tocou com lendas como Michael Jackson e Madonna,e detém uma estrela na Calçada da Fama. O filme celebra sua contribuição à música,destacando a percussão como essencial para conectar o humano ao espiritual,resgatando memórias ancestrais através do ritmo.

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Li recentemente alguns estudos da antropóloga inglesa Sheila Kitzinger,defensora do parto natural,da amamentação e estudiosa da vida intrauterina. Para ela,o útero é a nossa primeira casa,na qual convivemos com a proteção da escuridão e o acalanto das batidas do coração da nossa mãe. Aí,depois de ouvir um episódio do “Nosso podcast de cinema”,da Marina Person e do Gustavo Rosa de Moura,fui assistir ao documentário “The groove under the groove,os sons de Paulinho da Costa”,dirigido por Oscar Rodrigues Alves,disponível na Netflix. Oscar foi entrevistado pela dupla de cineastas no episódio 67 do podcast.

Carioca do Irajá,Paulinho da Costa é um dos mais ativos e festejados músicos brasileiros sobre o qual pouca gente ouviu falar. Percussionista dedicado e dono de um sorriso cativante,ele ganhou os palcos do Rio,da Europa e foi descoberto por Sérgio Mendes em uma das apresentações. Convidado por Mendes,mudou-se para Los Angeles em 1972 e,a partir de então,estreou no estúdio e na ficha técnica de pelo menos metade dos hits que você já escutou. Sério. Ele gravou com Dizzy Gillespie,Michael Jackson,Madonna,Elton John,Bob Dylan,Ray Charles,Earth Wind and Fire e mais outros 800 e tantos astros dessa grandeza.

Não por acaso,ele é o primeiro cidadão nascido em solo brasileiro a ter sua palma em uma estrela da calçada da fama de Los Angeles. Carmen Miranda é outra brasileira,nascida em Portugal,com uma estrela por lá. No documentário,will.i.am,do Black Eyed Peas,diz que percussão é o que está mais próximo das batidas do nosso coração e que o samba,tão bem executado por Paulinho,é percussão pura.

O filme capta com maestria essa essência invisível. Oscar Rodrigues Alves não faz apenas um registro biográfico,ele filma o entusiasmo dos colegas ao falar de Paulinho. Quincy Jones deu uma de suas últimas entrevistas em vida para o filme e explicou a importância da música brasileira,bem representada por Paulinho na indústria norte-americana.

Ao acompanhar a trajetória de Paulinho,somos levados a compreender que a percussão não é um mero adorno rítmico,mas a espinha dorsal do que entendemos como música. O que Paulinho levou para o mundo foi a nossa identidade mais profunda,o balanço que cura e que conecta o sagrado ao profano. O filme traz depoimentos de lendas da música que reverenciam o brasileiro como uma força mística da natureza. Ele não apenas toca sorrindo,ele tem uma escuta atenta e é capaz de canalizar algo maior.

Há uma dimensão profundamente espiritual nesse ofício. A percussão é a linguagem mais antiga da Humanidade,a primeira tentativa de dialogar com os deuses e de organizar o caos do universo através da cadência. Quando Paulinho da Costa toca um par de colheres,bate um tambor ou agita um maracá,ele ativa uma memória celular coletiva.

A música popular brasileira carrega essa herança ancestral em que o tambor é o centro do terreiro,da avenida e do cotidiano. O samba é essa comunhão,um fluxo contínuo de energia que arrasta o corpo e eleva a alma. Não por acaso,o filme tem grandes momentos na Portela,escola que tanto ensinou a Paulinho; e em terreiros de Cachoeira,no interior da Bahia,para onde ele é levado,pela primeira vez,pelo colega e admirador Carlinhos Brown.

A tese de Kitzinger sobre a vida intrauterina nos ajuda a decifrar a razão pela qual o ritmo nos emociona tanto: nós fomos gerados no balanço de uma maré escura e protegida,embalados pela percussão vital da maternidade. Paulinho da Costa,com seu talento,espalhou para mais de 6 mil faixas essa cadência que acalma a nossa alma nômade,nos lembrando de onde viemos. A música,impulsionada pelo coração dos tambores,funciona como um cordão umbilical que nos reconecta ao começo de tudo e à nossa própria humanidade.

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