Casa Revista de moda Obra de arte círculo social Transação imobiliária Notícias atuais MAIS

Filosofias do Português

2026-06-17 HaiPress

Bandeiras de Portugal e Brasil — Foto: Mauricio Fonseca

Dizem que português é uma língua complicada. Eu acho que complicados somos nós. Criaturas deliciosamente complexas,que não se contentam com o que foi,é e será,e por isso se estendem em possibilidades,hipóteses,devaneios.

Tomemos como exemplo a Ana e um beijo. Fosse esta uma mulher simples,a ação se daria no passado (Ana beijou),presente (Ana beija) ou futuro (Ana beijará). Fim da história para nossa protagonista de claras intenções e ações concretas.

Ocorre no entanto que o beijo pode não ter sido dado. Em vez de um ato,ele se torna abstração. Nós criamos um tempo verbal exclusivo para tal conjectura,o futuro do pretérito. Nele,Ana beijaria. E não satisfeitos em definir o que foi potencialmente o maior erro da vida da Ana,ainda ressaltamos a coisa pelo futuro do pretérito composto,no qual três verbos validam o remorso: Ana poderia ter beijado.

Ana está satisfeita? Não está. Ela deixou de ter a vida interior do tamanho de uma ameba para se remoer por dentro. Ana não beija,beijou ou beijará,mas ela gostaria,deveria,poderia beijar ou ter beijado. O beijo sai da ação para habitar nossas mentes,e é justo a ausência no mundo real que faz com que criemos esta caixinha imaginária,onde o beijo que não foi dado se dá.

O futuro do pretérito é o mais filosófico dos tempos verbais. Nasceu da insatisfação com o presente e da necessidade de alimentar um segundo mundo,imaginário e intransferível. No aqui e agora é vida que segue,e no entanto para seguir precisamos escapar para este outro lugar com hipóteses.

Você estudaria se pudesse voltar no tempo. Deveria ter ido com a Débora para Floripa. Deveria ter pedido desculpas e poderia ter dito que gostava. Mas você não disse,não fez e não foi,e agora tem que arcar com o peso das escolhas,do remorso e da inércia,tangíveis pelo futuro do pretérito.

Cada um e todos nós,lidando diariamente com irrealizações. Construindo esta vida imaginária e paralela,onde se dá o que não se deu.

Portanto não foi um sádico gramático do tempo de Matusalém que criou a multitude de tempos verbais. Foram as angústias dos seus antepassados. Foi a necessidade humana por abstrações. O futuro do pretérito composto,ali para elaborar arrependimentos (você deveria ter amado). O futuro do presente para expressar otimismo e desejo (você amará). O infinitivo pessoal para quando o desejo for acanhado (você gostaria de amar). O imperativo para você deixar de ser besta e se enfiar na vida (ama tu). O gerúndio para provar que você entendeu a que veio e permanece amando. O pretérito mais que perfeito,que a esta altura só serve para provar que você é muito velho,do tempo em que você amara,talvez inspirado pelos poetas já não lidos das tertúlias da Rua do Ouvidor.

Fôssemos mais simples nós amaríamos e só.

Isso me lembra Millôr Fernandes,quando disse que o Brasil tem um longo passado pela frente. É frase altamente política e que pego emprestada para este breve tratado filosófico linguístico. Os 16 tempos verbais existem para expressar as complexidades da alma. Nós temos,como o Brasil,um passado pela frente e pelos lados. Complexas conjugações para lidar com o vasto universo além do presente. Com o que poderia ou poderá se dar.

Declaração: Este artigo é reproduzido em outras mídias. O objetivo da reimpressão é transmitir mais informações. Isso não significa que este site concorda com suas opiniões e é responsável por sua autenticidade, e não tem nenhuma responsabilidade legal. Todos os recursos deste site são coletados na Internet. O objetivo do compartilhamento é apenas para o aprendizado e a referência de todos. Se houver violação de direitos autorais ou propriedade intelectual, deixe uma mensagem.

Mais recentes

Em carta, secretário de Comércio dos EUA diz que Anthropic precisa de autorização do governo para dar acesso a estrangeiros à sua IA

Messi vibra com estreia igualando recorde de artilharia em Mundiais e hat-trick: 'Foi um momento muito lindo'

Fernanda Rodrigues viverá vítima de abuso psicológico em novela vertical que terá Ricardo Pereira como vilão e Daniel Rocha fazendo o mocinho

'Quem ama cuida': Pilar planeja atentado contra Adriana

Lula insiste no erro de bloquear recursos de agências reguladoras

Peru eleva previsão de impacto do El Niño no litoral do país: 'Um dos mais afetados pelo fenômeno'

© Direito autoral 2009-2020 Capital Diário de Lisboa    Contate-nos  SiteMap