
João Bosco em sua casa na Gávea. — Foto: Ana Branco
João Bosco diz que,se não tivesse saído de Ponte Nova aos 15 anos para estudar em Ouro Preto,possivelmente teria arrumado um trabalho na cidade mineira natal e sepultado o desejo de ser artista. Se em Ouro Preto,em 1970,um jovem chamado Pedro Lourenço Gomes não tivesse entrado no bar onde ele estava tocando e falado de um amigo carioca que poderia pôr palavras naquelas melodias,não teria conhecido Aldir Blanc. Sem conhecer Aldir,talvez não tivesse dado impulso,já morando no Rio de Janeiro,a uma das carreiras mais importantes da música brasileira.
— É como os “Quatro quartetos” do (poeta) T.S. Eliot. O que poderia ter sido e o que foi desaguam no mesmo tempo presente. O que foi é o que interessa. O resto é especulação — reflete Bosco,que completa hoje 80 anos. — A vida são vários momentos. Tem o momento da prorrogação,que é quando você consegue entender muita coisa que não entendia antes. Com 80 anos,o que eu posso dizer é isso.
Ele começa a festejar a data em 31 de julho,com o lançamento de “Amigos novos e antigos — Parte 1”,um EP de seis faixas. O álbum completo sairá em 25 de setembro. E dá a partida numa turnê nacional em 2 de outubro,no Qualistage,na Barra da Tijuca (Zona Sudoeste do Rio).
No EP,ele canta sozinho “Boca de sapo” e recebe convidados nas outras: Zeca Pagodinho (“Siri recheado e o cacete”),Mart’nália (“Kid Cavaquinho”),Tiago Iorc (“Perfeição”),Cesar Camargo Mariano (“Casa de marimbondo”) e Hamilton de Holanda (“Nação”).
Embora nem todas as músicas previstas para o álbum sejam parcerias com Aldir Blanc,ele diz que também está celebrando os 80 anos do amigo,que faria aniversário em 2 de setembro. O letrista morreu em 4 de maio de 2020,de Covid.
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— Sinto muita falta dele em tudo — resume Bosco. — Comecei a sentir falta dos telefonemas diários e dos e-mails quase diários. Perguntava coisas para ele,questões pessoais,existenciais. Descobri que era o cara que falava comigo. Depois eu fiquei sem.
De alguma forma,mensagens ainda chegam. Recentemente,Mary Sá Freire,viúva de Aldir,encontrou um poema dedicado a Bosco,“Vaga-lume”,e lhe enviou. A inspiração era a dificuldade que Bosco tem para dormir: “De noite,o medo da vida e o fulgor da morte me acendem no escuro: cintilância”.
Em 2024,musicou uma letra que Aldir teria reservado para ele,mas que talvez nunca tenha lhe entregado: “E aí?”.
— Fiz para um Aldir que não estava mais aqui. Musiquei de forma diferente,pensando nele,no que ele gostava. Fiz tentando agradar ao Aldir onde ele estivesse. Queria dar um abraço e dizer o quanto eu sentia a ausência dele — conta.
Embora já não compusessem tanto juntos,estavam com o projeto de um samba-enredo sobre o Valongo,o cais no Centro do Rio onde africanos escravizados desembarcavam no século XIX.
Bosco é o quinto de uma família de dez irmãos. O móvel mais importante da sala da casa era um aparelho com vitrola e rádio. Duas irmãs mais velhas compravam discos variados,formando seu gosto eclético. Nas rádios,como a Nacional,ele admirava intérpretes,especialmente Angela Maria.
Tinha uns 10 anos quando uma das irmãs,pianista,lhe comprou um violão de tampo verde. Nunca teve professor,valendo-se de uma incrível capacidade auditiva para transpor para o instrumento o que escutava. E ficava olhando e ouvindo os bons músicos locais,como o violonista Gutinha.
Depois de concluir o antigo ginásio,foi continuar os estudos em Ouro Preto. A chegada na cidade histórica,perto de completar 16 anos,provocou um alumbramento:
— Fiquei parado olhando aquilo. Era um mundo novo para mim. Aquela arquitetura... Senti uma vibração interna que eu não consigo explicar. No candomblé se diria que senti um vento sagrado.
Com seus novos colegas,começou a ouvir bossa nova,jazz,blues: Tom Jobim (o disco “The composer of Desafinado,plays”),Moacir Santos,Ray Charles,Dave Brubeck,Art Blakey,Modern Jazz Quartet — com o violonista brasileiro Laurindo Almeida como convidado. E descobriu para valer João Gilberto escutando o disco “Getz/Gilberto”.
— Como no disco do John Coltrane (“Giant steps”),era como se fossem degraus gigantes. Uma coisa puxava a outra — diz.
Estudou engenharia (e se formou),mas só pensava em música. Integrou,como cantor e violonista,o Quarteto de Ouro Preto. Em 1967,com apenas 21 anos,apresentou-se a Vinicius de Moraes,que estava de passagem pela cidade,e se tornaram parceiros. O poeta e o pintor Carlos Scliar o estimularam a conhecer o Rio,para onde viajou em 1969. Outro alumbramento.
— Nunca tinha visto o mar. Era alta madrugada,e o táxi fez aquela virada do Leme para Copacabana. Tinha a Lua na água. O Sol ia nascer,ainda não tinha o vermelho e aquele amarelo forte,era meio rosa. Conhecia uma canção recente do Tom,“Fotografia” (que fala de Sol e Lua). Eu já estava entrando num clima do Rio — recorda ele,que passou a circular pela Zona Sul ciceroneado por Vinicius e Scliar,só vindo a conhecer a Zona Norte mais tarde,através de Aldir.

João Bosco e Aldir Blanc,nos anos 1970 — Foto: Reprodução
Os dois foram parceiros praticamente exclusivos entre 1970 e 1984. Suas criações — às vezes com a participação de Paulo Emílio,de quem Bosco também tem muita saudade — nutriram discos como “João Bosco” (1973),“Caça à raposa” (1975),“Galos de briga” (1976),“Tiro de misericórdia” (1978),“Linha de passe” (1979) e “Comissão de frente” (1981). Outros letristas trabalharam com Bosco depois: Capinan,Belchior,Martinho da Vila,Antonio Cicero,Waly Salomão,Chico Buarque,Nei Lopes,Arnaldo Antunes e,o mais frequente,seu filho Francisco Bosco. Uma trajetória para se ter orgulho aos 80 anos,apesar das questões inerentes à idade.
— Você vai levando a vida. Tem os perrengues de saúde,vai frequentando médicos,laboratórios,para com isso,para com aquilo. Mas só tenho a agradecer tudo o que me foi mostrado pelos amigos,pelos grandes artistas,pelos grandes parceiros,por ter chegado até aqui e conseguido fazer coisas. Investi muito o meu tempo naquilo que eu amo — avalia ele,que tem um forte vínculo com o futuro: os netos Iolanda,Lourenço e Madalena.
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