
A Sefaz reforçou a fiscalização nas barreiras das divisas do Rio com São Paulo,Minas Gerais e Espírito Santo,obrigando caminhões de combustíveis a passar por inspeção presencial de auditores fiscais. — Foto: Divulgação/Sefaz-RJ
GERADO EM: 26/07/2026 - 21:05
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A circulação intensa de dinheiro em espécie,a diversidade da cadeia produtiva e o faturamento bilionário tornaram o setor de combustíveis um dos principais alvos do crime organizado no Rio. Segundo investigações das polícias Civil e Federal e do Ministério Público,esquemas envolvem facções criminosas,milícias,integrantes do jogo do bicho e agentes públicos interessados em dar aparência de legalidade a valores obtidos por corrupção e outras atividades criminosas. Levantamento do GLOBO aponta que,só nos últimos dez meses,nove operações colocaram sob suspeita mais de R$ 40 bilhões movimentados por redes de postos de combustível no estado.
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A lista de crimes é extensa,da lavagem de dinheiro à abertura de empresas fantasmas em nome de “laranjas”. Ao todo,as ações cumpriram 109 mandados de busca e apreensão e 25 de prisão. Numa outra frente,com o objetivo de estancar a sonegação de impostos — outro problema grave e que pode acobertar mais condutas criminosas —,a Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz) identificou que 2.100 (95%) dos 2.205 postos do Rio apresentavam algum tipo de irregularidade. Só os que não cumpriam exigências do registro obrigatório sobre movimentação de combustíveis e volume de vendas eram 1.744,sobretudo na capital (636 postos),em Campos dos Goytacazes (86) e em São Gonçalo (81).
— É o setor que movimenta maior volume de recursos e o que tem a maior carga tributária. Se uma empresa não presta as informações de movimentação de entrada e saída de combustíveis,fica difícil rastrear o caminho do dinheiro — diz o titular da Sefaz,Guilherme Mercês.

A máfia instalada nos postos — Foto: Editoria de Arte
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No domingo,O GLOBO já havia mostrado como tráfico e milícia no Rio sequestraram setores da economia popular,cobrando taxas e controlando a venda de produtos básicos,como o ovo e o tijolo,em áreas dominadas ou sob influência do crime. No caso dos combustíveis,operações como a Carbono Oculto,deflagrada em agosto do ano passado,revelaram os tentáculos da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) em esquemas bilionários de importações fraudulentas e de venda em postos espalhados pelo país. No Rio,as investigações desvendaram que grupos como o Comando Vermelho (CV) se infiltraram nesse filão,enquanto quadrilhas se especializaram em perfurar oleodutos e roubar cargas de combustíveis e lubrificantes.
— É um segmento que ainda movimenta quantidade significativa de dinheiro em espécie,o que dificulta o controle pelos órgãos de fiscalização. Além disso,existem diferentes formas de fraude,como adulteração das bombas,entrega de quantidade inferior à paga pelo consumidor e a venda de combustíveis adulterados por preços mais baixos — afirma Renan Mello,titular da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro.
A questão levou o Ministério da Justiça e Segurança Pública a se reunir este mês com órgãos estaduais a fim de discutir estratégias conjuntas de enfrentamento no âmbito do Escritório Nacional Antifacção (ENA).


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Na foto,o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio Rodrigo Bacellar,um dos alvos de mandados de prisão,chega a sede da PF. Ela vai ser transferido para um presídio federal — Foto: Márcia Foletto


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Na foto,chega a sede da PF. Ela vai ser transferido para um presídio federal — Foto: Márcia Foletto
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Na foto,movimentação no pátio da PF — Foto: Márcia Foletto

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Rodrigo Bacellar chega a unidade da Polícia Federal — Foto: Márcia Foletto
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Outro alvo da operação é Márcio Poncio,pastor e empresário do ramo do tabaco — Foto: Reprodução Instagram

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Outro alvo é Marco Antônio Cabral,advogado,ex-deputado federal e ex-secretário estadual de Esporte do Rio de Janeiro durante o governo de Luiz Fernando Pezão — Foto: Reprodução / Instagram @marcoantoniocabral
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Marco Antônio ao lado do pai,Sérgio Cabral — Foto: Reprodução / Instagram

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Já Adilson Oliveira Coutinho Filho,o Adilsinho,é um bicheiro conhecido das autoridades de segurança cariocas — Foto: Editoria de Arte
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Os agentes cumprem três mandados de prisão preventiva e 14 de busca e apreensão
Emerson Kapaz,presidente do Instituto Combustível Legal (ICL),participou do encontro e conta que cerca de mil postos do estado estão sob suspeita de envolvimento com organizações criminosas — quase metade dos estabelecimentos registrados no Rio. Segundo ele,o setor passou por uma profunda transformação nos últimos anos em razão da entrada desses grupos:
— A situação se agravou muito. Antes,o principal problema era a sonegação fiscal. Hoje,há diversas modalidades de adulteração e fraudes operacionais,que vão do poço ao posto. É um setor que atrai não só pela possibilidade de lavar dinheiro,mas também pelo alto potencial de lucro. O crime obtém um retorno maior com combustíveis do que com o tráfico de cocaína.
Kapaz relata que a falta de fiscalização criou um ambiente favorável às facções:
— Por muito tempo,o problema não recebeu a devida atenção dos órgãos fiscalizadores,o que criou um ambiente de permissividade. No caso do Rio,ainda vemos operações que revelam a participação de agentes públicos. É urgente fortalecer a fiscalização e ampliar o monitoramento das brechas por onde esse dinheiro circula no sistema financeiro.

PF deflagra operação contra grupo do setor de combustíveis — Foto: Polícia Federal
Operações recentes evidenciam que essa apropriação do setor pelo crime vai além das quadrilhas de ladrões de carga,do tráfico e da milícia. Este mês,a sexta fase da Unha e Carne,da Polícia Federal,mirou uma organização criminosa suspeita de usar mais de 80 postos da Região Metropolitana do Rio,em cidades como Niterói e São Gonçalo,para lavar dinheiro,com participação de agentes públicos. As investigações indicaram que o esquema movimentou R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos,conforme relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Entre os alvos de busca e apreensão estavam o ex-prefeito de Belford Roxo,Márcio Canella (União),e o delegado da Polícia Civil e ex-secretário estadual de Polícia Civil Marcus Amim,que negaram envolvimento no caso.
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Dois meses antes,em maio,a quarta fase da mesma Unha e Carne prendeu o deputado estadual Thiago Rangel (Avante),sob a acusação de utilizar uma rede de postos de combustível para lavar dinheiro proveniente de um esquema de direcionamento de licitações e contratos públicos na área da Educação do estado. Com reduto eleitoral em Campos dos Goytacazes,ele é dono de ao menos 18 postos de combustíveis e de GNV.
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Foi o parlamentar que tentou instalar,na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj),uma CPI do Gás,sob o argumento de investigar a prestação do serviço de distribuição de gás canalizado da empresa Naturgy no Rio.
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Deputados afirmam,porém,que a proposta tinha intuito diferente: pressionar a concessionária para impedir a instalação de medidores de GNV protegidos pelas chamadas “caixas verdes”,sistema que dificulta fraudes no consumo de gás. A proposição acabou arquivada. O GLOBO tentou contato com representantes de Rangel e não teve retorno.
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Já no âmbito fiscal,a Sefaz afirma que as diferentes medidas de combate à sonegação contribuíram para aumento de 77% da receita de ICMS do setor de combustíveis no segundo trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025. O montante foi de cerca de R$ 2,4 bilhões agora,contra R$ 1,3 bilhão de abril a junho do ano passado.
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Uma das iniciativas reforçou a fiscalização nas barreiras das divisas do Rio com São Paulo,obrigando caminhões de combustíveis a passarem por inspeção presencial de auditores. Em junho,segundo a secretaria,a medida resultou em R$ 1,8 milhão em autos de infração,alta de 482% em relação ao mesmo período de 2025.
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Além disso,em entrevista ao GLOBO este mês,o governador interino Ricardo Couto afirmou que Ricardo Magro,à frente do Grupo Refit (antiga Refinaria de Manguinhos),é o “empresário mais nocivo” do estado. Magro é considerado um dos maiores devedores de ICMS do Rio,e a Refit foi alvo este ano da Operação Sem Refino,feita pela PF.
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