Casa Revista de moda Obra de arte círculo social Transação imobiliária Notícias atuais MAIS

Os 15 minutos do apetite

2026-08-18 HaiPress

Viralização de comida desperta curiosidade,mas também pode distorcer o gosto — Foto: Magnific

Andy Warhol dizia que,no futuro,todos teriam quinze minutos de fama. Talvez nem ele imaginasse que a previsão alcançaria também os alimentos. Hoje,um pepino,uma bolacha ou um queijo podem aparecer em milhões de telas,sumir dos supermercados e acabar no carrinho de quem,até então,mal pensava neles.

Foi o que aconteceu com o queijo cottage nos Estados Unidos,ressignificado em sorvetes,pães,massas e molhos. Na Islândia,uma receita divulgada por um criador de conteúdo canadense conhecido nas redes como “o cara do pepino” ajudou a criar uma verdadeira comunidade de fãs do vegetal,que chegou a desaparecer das prateleiras. Por aqui,o morango do amor também teve sua temporada de celebridade. É curioso como uma imagem vista por acaso pode despertar um desejo que,até aquele momento,nem existia.

Isso só mostra como o apetite humano não nasce na fome. Comemos com os olhos,a memória e a expectativa. O aroma de um prato pode despertar emoções antigas. Uma sobremesa bonita entra no feed antes mesmo da primeira colherada. São os estímulos que determinam a nutrição do dia.

Os vídeos curtos exploram isso muito bem. Mostram o queijo derretendo,a casquinha se partindo,o molho escorrendo. A câmera se aproxima e quase sentimos o gosto. Em segundos,o cérebro já antecipa o prazer. A fome pode nem ter aparecido,mas a vontade foi saciada - por enquanto.

Talvez por isso nos apressemos em provar a receita da moda - antes que outra tome seu lugar. Corremos para matar a curiosidade,claro,mas também para não ficar com a sensação de estar chegando atrasado a uma conversa animada.

Não vejo a influência das redes sociais como necessariamente ruim. Likes despertam interesse e levam muita gente para a cozinha. Receitas elaboradas hoje são testadas por quem mal tem o hábito de abrir potes e latas. Fatiar,misturar e até errar nos fazem prestar mais atenção ao que se leva à boca. Com tantas horas diante do celular,cozinhar pode ser uma pausa bem-vinda,ainda que a ideia tenha vindo do próprio.

O perigo começa quando a curiosidade passa a funcionar no automático. O algoritmo sabe o que prende nosso olhar,mas não conhece nossa fome,nossa rotina ou aquilo de que o corpo precisa. Se toda imagem atraente vira uma vontade imediata,fica mais difícil perceber de onde vem o desejo.

Vale observar quanto tempo o interesse dura. Muitas vezes um impulso provocado na timeline desaparece com a mesma rapidez. Esperar alguns minutos antes de decidir basta para entender melhor o que se está sentindo.

Sempre fomos influenciados na hora de escolher o que comer. Uma amiga elogia uma receita,alguém pede algo atraente na mesa ao lado,um preparo de família lhe chega às mãos. Mas,no feed,isso acontece ao mesmo tempo para o mundo todo. Em poucos cliques,um ingrediente quase desconhecido viraliza e logo vira o desejo da vez.

A novidade está mais na velocidade do que no comportamento. Há 22 anos,muito antes de o verbo “viralizar” ganhar o sentido atual,uma receita minha já provocava espanto. José Simão me viu preparando melancia grelhada na televisão e brincou que aquilo era “água grelhada”. Pouco depois,encontrei num jornal americano a história do chef americano de Massachusetts Jeffrey Fournier,que havia transformado a fruta num elaborado “bife de melancia” em um restaurante de Boston. Não sei quem teve a ideia primeiro. Sei apenas que,naquela época,levar uma melancia ao fogo já era suficiente para virar assunto.

Sorvete de cottage? Cheesecake japonês? Vale provar e entrar na brincadeira. Se a receita for mesmo boa,haverá vontade de repeti-la quando o vídeo já tiver sumido da tela. A melancia grelhada,para mim,atravessou os seus quinze minutos — nasceu da busca por algo criativo,mas sobretudo leve e magro. Talvez seja esse o melhor teste para a fama de um alimento: descobrir se ele ainda desperta vontade depois que a surpresa passa.

Melancia grelhada

Esta é a receita que surpreendeu o José Simão tantos anos atrás,e que continua valendo a experiência.

Preparo:

Pegue fatias grossas de melancia,com cerca de 2 cm de espessuraPincele os dois lados com azeite. Tempere com sal e pimenta-do-reinoColoque as fatias na grelha quente. Deixe por 3 a 5 minutos de cada lado até formar as marcas da grelhaCubra com folhas de hortelã e um fio de vinagre balsâmico e sirva em seguida.

Declaração: Este artigo é reproduzido em outras mídias. O objetivo da reimpressão é transmitir mais informações. Isso não significa que este site concorda com suas opiniões e é responsável por sua autenticidade, e não tem nenhuma responsabilidade legal. Todos os recursos deste site são coletados na Internet. O objetivo do compartilhamento é apenas para o aprendizado e a referência de todos. Se houver violação de direitos autorais ou propriedade intelectual, deixe uma mensagem.

Mais recentes

Michelle intensifica agenda com evangélicos enquanto rivais buscam espaço no segmento religioso no DF

Ciclone extratropical leva temporais ao Sul, enquanto Rio e SP terão calorão e tempo seco; veja previsão para esta quarta

IPTU por tamanho ou por preço do imóvel: entenda o que muda com decisão do STF

Dados de apostadores, jogos e fluxo financeiro: saiba as informações que bets precisam repassar ao governo federal

Ministros do STF veem dificuldades para julgar mandato-tampão do Rio, mas caso segue na pauta

Coreia do Sul diminui exercícios militares com EUA após crítica de Trump

© Direito autoral 2009-2020 Capital Diário de Lisboa    Contate-nos  SiteMap